
José Saramago
Depois de ler Ensaio sobre a cegueira, há mais ou menos uns dois anos, a minha visão (literalmente falando) nunca mais foi a mesma. O impacto foi tão grande que vez ou outra quando estou parada em um farol vermelho, fico imaginando a agonia de ficar cega de uma hora pra outra.
Logo depois comecei a ler As intermitências da morte, que só pelo título já me deixou curiosa…mas não terminei. Penso agora ser um bom momento de voltar à essa leitura de um escritor que vai deixar saudades!
Aproveito para compartilhar com vocês um texto sobre o Saramago que acessei lá no Blog da Flip 2010.
Boa leitura!
Um Saramago hormonal – Blog da Flip
A morte de Saramago pegou-nos de surpresa. Apesar da idade e dos problemas de saúde, parecia inquebrável, tal sua verve, entusiasmo e firmeza. No blog da Companhia das Letras, Chico Buarque afirma, em parte por todos nós: “Perco um grande amigo. Perdemos todos um ser humano admirável, um escritor imenso, zelador apaixonado da língua portuguesa.”
A jornalista portuguesa Vanessa Rodrigues, correspondente em São Paulo da rádio portuguesa TSF, escreveu um emocionante texto sobre o escritor, o qual publicamos, com exclusividade. Vanessa, que esteve na Flip em 2006, pelo Público, e em 2008 e 2009 pelo Diário de Notícias, ambos jornais portugueses, conheceu Saramago pessoalmente e leu todos os seus livros – O Ensaio sobre a Cegueira, A Caverna, o Ano da morte de Ricardo Reis e Caim são seus favoritos. Chama-o de ” mestre literário deste meu Português salgado”. E diz que por causa dele, acredita “que a escrita é a melhor das terapias para tornarmos a vida um pouco mais suportável.”
Ensaio sobre a traição; um Saramago hormonal, em estado de excepção
Por Vanessa Rodrigues
Vi-o duas vezes, mas cheguei a viver a vida dele, mais do que gostaria, sempre num estado de excepção. Trai-o, tantas vezes! E ele a mim. Nunca soubemos bem da vida um do outro (e ele nem sempre me fazia bem), porque ele era isso: um estado de excepção, a subverter regras, imposições, valores. E isso incomodava-me. Mexia comigo. E nós não gostamos que mexam connosco.
Depois, ele encafuava-me numa gruta, para que pudesse ouvir o eco da minha voz, o bafo de mim e os sentidos. Ele queria que eu percebesse que para respirar, é melhor estar sozinho. E lê-lo é essa solidão connosco, estando nele. Por isso, ele tinha a vida na ponta dos dedos sem medo de ser, acto contínuo.
Era um homem sem parágrafos porque a vida é escorreita. Deixava-me num deserto. Ele atirava-me sempre para um deserto. E a respiração ofegava-me perto dele. Era hormonal. Tudo nele era hormonal, por isso me apertava sempre o peito quando ele estava por perto, nem que fosse só um pedaço dele nas estantes do meu quarto. Sabia que se pegasse nele, se lhe folheasse a vida, não poderia voltar atrás. Continuar Lendo »